16.7.08

Ninguém me saúda nas esquinas do papel

Ninguém me saúda nas esquinas do papel.
Nenhum deus me acompanha pelas ruas desertas.
Mas nos dedos sinto o rumor de um segredo vegetal.
É como se procurasse alargar a mão dos deuses.
É como arder com a água na brancura ofuscante
da ressaca. E as palavras da casa se levantam
a janela a porta a cama e a cadeira.
São presenças espessas e nítidas no perfil.
Assim se forma um círculo com energia erguida
nas sílabas preenchidas pela coerência do mundo.
Maternas são as sombras em torno de um centro verde
que foi talvez um deus antigo que se esqueçeu
e o esquecimento é o seu signo: a transparência.

15.7.08

Cheguei a um limbo

Cheguei a um limbo: fundo vazio de silenciosa brancura,
volto à ausência, ao ventre da sombra, onde sou uma
semente adormecida no enigma da brisa. A minha alma é ao
mesmo tempo a tecedeira das viagens e a pastora calada na
absoluta imobilidade da recepção.

Aceita, acolhe a minúscula astronomia de um jardim

Aceita, acolhe a minúscula astronomia de um jardim: os
insectos com as suas múltiplas facetas e as delicadas antenas
com que se orientam. Ao rés do chão: um ramo partido,
uma formiga, a baba de um caracol. Fascinantes, meticulo-
sos são os vocábulos que compõem as constelações legíveis,
intactas. Uma fábula adormece ao sol das folhas: o jardim é
um estremecimento.

Trago na palma da mão a luz diurna

Trago na palma da mão a luz diurna: e a ferida no flanco.
O meu deus, o meu demónio, respira fundo e alto. Ela,
a minha múltipla companheira, é uma coluna silênciosa e
ardente. A luz sela esta aliança entre o sopro e a matéria
e uma voz se eleva nos barcos do silêncio.

fotografia e selecção de poemas de João Silva