3.1.10

Todo aquele que abre um livro entra numa nuvem

Todo aquele que abre um livro entra numa nuvem
ou para beber a água de um espelho
ou para se embriagar como um pássaro ingénuo
A sôfrega retina
vai-se tornando felina e inflada
e os seus liames tremem entre o júbilo e a agonia
Um livro é redondo como uma serpente enrolada
e formado de fragmentos onde lateja o sangue de um pulso
que já não é de um autor que nunca o foi
e que será sempre o ritmo do que está a nascer
irrigando o nada e os terraços sobre os abismos
Nunca o livro se completa embora o redondo o circunde
e o mova para o seu interior sem nunca o envolver
Jamais a nuvem se dissipa mesmo quando a claridade ofusca
Como se fosse preciso adormecer nela como sobre os ombros do mundo
para acompanhar o seu fluxo ingénuamente novo
com os delicados diademas de fogo e espuma
O livro ora é de veludo ora de bronze
e os seus traços abrem janelas ou terraços
sobre o corpo latente como um arbusto entre as pedras
Se a palavra vibra com um meteoro ou desliza como uma anémona
ou não é mais do que uma estrela de areia
a sua proa sulca o incessante intervalo
entre o ardor de incompletos liames
e a estátua aérea que se eleva à sua frente
e continuamente se forma e se deforma
por não ser nada e ser o alvo puro
de um movimento ingénuo sonâmbulo e incerto

Deita-se num copo minúsculas constelações

Deita-se num copo minúsculas constelações
uma língua verde purpúrea ou dourada
e talvez um lábio com uma sílaba retida
Pode-se ainda acrescentar o sémen de um adolescente
um pedaço de incandescente carvão
uma pálpebra azul ou uma amendoa verde
um pequeno feixe de trigo um umbigo róseo
um peixe bizarro uma lãmina transparente
uma solitária estrela de musgo
a saliva de dois amantes entre um cavalo negro e outro branco
as estrilhas de um cálice cristalino
Tremos por fim fabricado uma lâmpada
e nunca mais nos lembraremos da imaginada matéria
que a torna incandescente e luminosa

Não desisti de habitar a arca azul

Não desisti de habitar a arca azul
do antiquíssimo sossego do universo.
A minha ascendencia é o sol e uma montanha verde
e a lisa ondulação do mar unânime.
Há novecentas mil nebulosas espirais
mas só o teu corpo é um arbusto que sangra
e tem lábios eléctricos e perfuma as paredes.
Aos confins tranquilos entre ilhas mar e montes
vou buscar o veludo e ouro da nostalgia.
Deponho a minha cabeça frágil sobre as mãos
de uma mulher de onde a chuva jorra pelos poros.
Ó nascente clara e mais ardente do que o sangue,
sorvo o cálice do teu sexo de orquídea incandescente!
A minha vida é uma lenta pulsação
sob o grande vinho da sombra, sob o sono do sol.
Há bois lentos e profundos no meu corpo
de um outono compacto e negro com um século.
Com simultâneas estrelas nas têmporas e nas mãos
a deusa da noite, sonâmbula, desliza.
Ao rumor da folhagem e da areia
escrevo o teu odor de sangue, a tua livre arquitectura.
Prisioneiro de longínquas raízes
ergo sobre a minha ferida uma torre vertical.
Vislumbro uma luz incompreensivel
sobre os campos áridos das semanas.
Elevo o canto profundo do meu corpo
sob o arco das tuas pernas deslumbrantes.
Escrevo como se escrevesse com os meus pulmões
ou como se tocasse os teus joelhos planetários
ou adormecesse languidamente no teu sexo.

2.1.10

Navegava no navio da matéria

Navegava no navio da matéria
a melodia da sede cintilava
sob o pólen branco do silêncio
Sobre o veludo unânime das veias
viu as corolas e os cálices dos fósseis
os pássaros da seiva
os diamantes de musgo
a voluptuosa água da semelhança viva

O cristal da concha mais secreta
era negro sob a sombra ferida
e verde
e a sua língua era uma chama branca
aberta como um livro

Abeirou-se de uma crespa cabeleira negra
entre sumptuosas luas
viu as sinuosas artérias entre as asas de areia
a oscilação ritmica de um ventre
como uma lisa viola de coral
e bebeu a espessa água da profunda floresta

Na sua sede extrema na sua fragilidade pura
acariciava os veios dos astros vegetais
o flutuante tronco primaveril e arcaico
em que lábios adormecidos se ofereciam
num cálido sopro polvilhado de pólen
Era uma ânfora na duna era um barco fendido
de cintilante mercúrio
era uma ilha de palpebras
uma mulher de flancos de nascente
e de cãmaras de verdura
era a lenta pátria da terra o continente azul
do silêncio do nascimento solar
para adormecer sem espelhos
ao rés do horizonte

Tu procuras saber

Tu procuras saber
eu não procuro porque sei que nunca saberei
Tu queres abrir as portas do conhecimento para fundares
a tua integridade
Eu entrego-me ao vago e indefinível vagar
da luz sobre a página que nunca é um oásis
e não conduz ao plácido porto que nela pressentimos
Tu desejas ir além das sequências quotidianas
eu procuro também um além
mas no interior da sombra do meu corpo
ao ritmo da respiração
para fortalecer a minha incerta identidade
Tu não desistes de conhecer a lucidez do centro
para que a vida encontre o seu equlibrio e o seu horizonte
Eu não conheço outro horizonte além da vaga claridade
que ás vezes brilha no silêncio de um abandono
ou no fluir das palavras que procuram a nudez
Tu procuras algo que transcenda o mundo
eu procuro o mundo no mundo ou para aquém dele
Eu sei que a fragilidade pode cintilar
como uma constelação ou como um delta
quando o corpo se entrega sobre as dunas do silêncio
Tu queres ser a coluna ou a balança viva
do puro equilíbrio que sustenta o mundo

fotografia e selecção de poemas de João Silva