3.9.10

Já disse tantas vezes o que disse

Já disse tantas vezes o que disse
sem dizer o que agora não sei se vou dizer
É uma ilusão decerto supor que a palavra se levanta
e arde porque coincide com a substância real
Mas se a palavra não chega a ser uma evidência fértil
do mundo ela é a sede que inventa a sua água
e nós não sabemos se a água é verbal ou líquida substância

O desejo procura a oportunidade de um silêncioso enlace
com um corpo disperso mas de unidade vibrante
Esse corpo está no espaço em voluptuoso abandono
mas nós temos os músculos demasiado rígidos
e a língua não encontra as vogais vivas do veludo do sossego
Era esse corpo que outrora os homens partilhavam sem parti-lo
e de novo nasciam ao nível das virilhas e dos pulmões

Quando será o dia em que reconheceremos os rostos uns dos outros
como frutos fulvos com os seus sulcos de sombra e a sua melodia de nascente?
É esta a comunidade viva com que sempre sonhámos
esta a glória a única da identidade comum
em que os sonhos esvoaçavam com sombras felizes
porque estávamos perto do mar junto de grandes cântaros azuis
atulhados de seiva ou do pólen de grandes girassóis

Mas o paciente escriba acaba por cansar-se
e desejar a presença actual de quanto ele projecta
num futuro possivel ou improvável Ele volta-se
para a pura possibilidade de ser quanto deseja
para ser ele próprio entre o príncipio e o fim
E como quem levanta um largo pano branco
para projectar uma imagem ou uma sombra
depõe a página sobre a mesa do vento
e escreve na violência da frescura estas palavras
Eu escrevo para que o universo diga sim no puro espaço
e esse sim ressoe no meu peito aberto

Não podemos dizer

Não podemos dizer
Cheguei aqui e inverter a perspectiva
olhando para trás
O solo nos solicita
e a sede de ser nos move para a frente
E é então que talvez reconheçamos o que fomos
entre os fragmentos dispersos da nossa identidade

Nós queremos sobretudo a relação mais viva
ainda quando sabemos que ela é incerta ou ilusória
As palavras desviam-se do que as excede ou as quer reter
mas elas querem corresponder com o seu lume frágil
ao que não conhecem mas pressentem para além das fronteiras silenciosas

Talvez toda a relação seja ilusória
mas poderá ser mais verdadeira do que a separação
Só a palavra adolescente não hesita embora trema
e caminhe nua sobre a linha da sua sombra
Tal é a maturidade do juvenil ardor
que abre o caminho que conduz às grandes águas

Quem escreve nunca está só na sua solidão de asceta
O espaço é de ninguém o espaço é ninguém
e de um só mas de um só em todos nós
O cantor modula a voz de mil vozes
O que no poema se move é um território de solidão comum
atraído pelo íman da unidade latente e latejante

Temos de ir ao extremo de uma solitária linha
mas é para voltarmos aqui ao ponto de partida
que já será outro começo e terá o timbre unânime das vozes
embora coadas pela espessura roxa da solidão
Estaremos então entre duas margens entre o princípio e o fim
e seremos mais do que fomos o que poderemos ser
ainda que não venhamos a ser senão o movimento de uma sombra

Já todos os meus gestos têm a geometria de um desenlace

Já todos os meus gestos têm a geometria de um desenlace
e talvez a sua melodia mortal e indelével
Por isso envolvo-me na folhagem onde as cigarras cantam
como se a força do verão tivesse uma cúpula incandescente

Já não é tempo de sonhar não é tempo de guitarras
porque todas as guitarras são de erva
Que tempo é este então? Sinto a fúnebre dolência
das lâmpadas do tempo e das urtigas nas janelas
Poderá ser a palavra a sombra perfumada
do que ela não alcança o perfume da sua sombra?

Como vencer a dúvida suspensa na garganta?
Será que em nós desliza ainda o cisne imaculado do ser?
Ou já não temos outro espaço senão um círculo de pedras e de cinza
de onde já não se vêem as constelações melodiosas
nem o sussurro da monótona folhagem do mar?

À minha primeira questão Quem sou eu?

À minha primeira questão Quem sou eu?
não posso responder mas ela inclina as minhas pobres lâmpadas
para o cerne obscuro de uma obscura folhagem
Se imagino que alguém poderá estar no silêncio
sinto que ele é um ser neutro e anónimo
muda testemunha ausente
e alheia ao que eu sou A um duplo de mim próprio
São os outros os amigos e amantes que me respondem
mas o que me dizem vai sempre além do que eu sou
e assim o espaço do que sou é um deserto
e vejo a minha figura como um espectro oscilante
Sou cada vez mais uma sombra um compartimento vazio
a indolência do ser o que não quero ser
os braços na cabeça um ovo frágil e cinzento
Ó preciosa fragilidade
do que poderia ser
se Deus me iluminasse com o seu hálito
e eu respirasse o silencio da sua face!

Quero ser outro e é outro que eu me vejo

Quero ser outro e é outro que eu me vejo
sentindo que sou eu sem saber quem sou eu
Escrever é sempre outra versão
de um texto que nunca se chegou a compor
Mas é igualmente a diversão
que nos faz vacilar entre o eu e um outro
sem necessitar de ser um ou outro

Há sempre quem procure saber quem é o autor de um texto
como para lhe pedir contas ou referências exactas
mas quem escreve desvia a trajectória paralela
para o ser que já sendo um outro
nunca o é o seu movimento para ele

Ninguém pode decidir Ele é um outro
porque ele é o processo de uma transformação
em que é uma invenção o reconhecimento
e que só é não sendo ou sendo um outro

Agrípia

Agrípia, foi a partir de ti que eu renasci
na luminosa corola de um sorriso
e os meus navios cinzentos e perdidos
seguiram a bondade do teu rumo.
Esta casa não seria a minha casa
se não fosse a tua branca arquitectura
e o teu hálito límpido que me guarda
nas suas tranquilas coordenadas.
Por ti o horizonte está em casa
e nele eu vivo contigo a ondulada
permanência da alma iluminada.

Cerealina

Quando o teu ventre era uma pátria
de cereal e uvas
e se ouvia a lentidão da chuva
sobre as tuas espáduas de basalto.
Quando alimentavas com pão verde
os espectros do vidro
e em teu redor esvoaçavam as aves
que vinham do mar e da montanha.
Quando eras a plenitude da argila
incendiada pelo verão,
todas as janelas estavam abertas, Cerealina,
para a juventude magnética do mar.

Passa uma ave de sombra

Avançar desfazendo
os nós dos nomes
aceitando a oferta nua
na sua abolição

Passa uma ave de sombra
entre as virilhas do sol
e sob a cálida abóbada
a duração redonda
nos seus anéis de pólen
flui sem ecos

A amêndoa do estio
consagra
a lentidão clara
do sossegado desejo
de não ser nada

fotografia e selecção de poemas de João Silva