31.7.11

O instante do silêncio

Se puderes aceitar a nudez
como uma graça ou uma pobreza
talvez encontres
as linhas de força inexplicadas.
Se com o teu peso irremediável,
proferires a palavra que mal pousa
poderás sustentar a magnética felicidade
desse instante,
ameaçado mas vivo,
do indecifrável silêncio da nudez.

A matéria do desejo

Há palavras com que procuramos navegar:
distância, sombra, lâmpada, vazio.
E às vezes abrem-se repentinos corredores,
no silêncio de uma nuvem veneranda.
E se toda a ciência é esquecimento
que por dentro torna tudo grande
e por fora rasga varandas brancas
para um horizonte que nunca foi pensado,
é porque em nós subsistem estrelas de água
que sob os arcos da noite demoraram.
E então o olhar regressa à fonte
com a força grave e limpa de estar vendo
a matéria mesma do desejo
numa colina que se espraia sob a brisa
e não é ainda um nome e já o inicia.

No jardim

Flutuávamos errantes e vazios
nas leves lufadas da folhagem
e entre espelhos opacos e redondos
feitos de argila e pedras com urtigas.
Os murmúrios obscuros, os rumores dispersos
casavam-se ao olvido e à espessura do longínquo.
No aroma da hora flutuávamos devagar
e se nos abraçávamos as coniventes cortesias
vegetais tornavam-nos vegetais.
Sentíamos no peito os majestosos montes
e o mar estava perto entre duas colinas.
Às vezes as nossas pálpebras desciam
para reter a luz a suave corrente
que de tão longe vinha, do diadema do mundo.
Cada pedra nos dizia o solitário solo
e a imobilidade pura de um nupcial sossego.

fotografia e selecção de poemas de João Silva