2.8.11

A construção da obra é também uma construção do corpo

A construção da obra é também uma construção do corpo. O construtor sai de si para entrar em si. A relação das forças com o mundo altera-se a partir do ponto cego em que a visão se gera até aos campos em que a luz se ordena na sua lisa e pura tranquilidade.
Construir é assim criar o espaço da união originária em que o tempo e o ser se reúnem como a vibração única de um arco entre o visível e o invisível. Mas se o construtor é o homem que trabalha sob o signo do uno, a sua matéria prima é a dispersão e o caos, o vazio e o obscuro, o informe e o opaco. Ele não recusa nem nega essa matéria, porque ela é a substância mais densa da sua construção e porque é nela que o ser aguarda a possibilidade de inaugurar uma forma nupcial que pertença tanto ao espaço da realidade exterior como à densidade obscura da sua essência íntima. O ser é assim a construção de si mesmo a partir de um ser que ainda não é e que tende permanentemente a ser. Como o construtor não se separa dessa matéria, toda a sua obra é uma incessante imersão na nebulosa interior, e ao mesmo tempo a transformação radical desse fundo obscuro que nunca perde completamente a sua obscuridade ao transformar-se no volume final das formas exteriores.

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fotografia e selecção de poemas de João Silva