1.8.11

Uma linha apenas uma sinuosa linha

Uma linha apenas uma sinuosa linha
e eu veria o seio da pátria matrona adolescente
levantando o seu archote vermelho
ou o candelabro do seu antigo esplendor
Ela seria a soberana encarnação do meu desejo
e todos os seus talismãs afluiriam ao delta
da idealidade universal

Ouço o clamor das suas veias
que requerem a consciência como um astro de universo
as constelações dos homens que se levantam e propagam
as suas luzes de audácia e vigilância

Recordo os anos em que uma pata férrea
em vão quis tornar incomunicável o seu tumultuoso tronco
de primavera e ela comunicava através dos muros
cantando no suplício com lúcida paixão
e entre dois extremos foi a vibrante insurreição
florindo nas espingardas e nos rostos libertos
O que será ela hoje ou amanhã se a Europa trai
o seu ideal de paz e unidade
montada sobre o touro que tem o fogo nas ventas
e incendeia as torres da construção humana?

O perfil imortal desta pátria foi traçado
pela dilatação do seu pequeno reino
que como uma onda alastrou por esta estreita faixa
que veio a ter o nome de Portugal
mas a sua vocação de audácia aventureira
impulsionou-a para o mar para ilhas longínquas
para continentes ignorados e o seu volume cresceu
espalhado pelo mundo inteiro

Eu amo esta pátria que se projecta no futuro
porque ela não pode conter em si o ímpeto do seu génio
nem a maré em que lateja um novo mundo

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fotografia e selecção de poemas de João Silva