Desenhos


O que nos diz a imagem? Diz-nos o que é e não o diz.
Porque não é uma palavra. Antes um silêncio,
Uma ausência, um vazio.
O seu sentido é uma promessa de sentido
Ou o silêncio do sentido que respira e transparece.
Ausência na presença plena.
Cintilação silenciosa e fixa de um olhar sem fim.
Um olhar vazio de tudo – que vê e não vê
E só vê porque é cego.
Tudo nele é visão, mas a visão vê tudo.

António Ramos Rosa, «Le Domaine Enchanté»



O que assinala o começo da produção visual de Ramos Rosa não é o mundo que olha (não há referentes), mas a vontade de um gesto perante a disponibilidade de uma folha de papel. Não há referentes prévios para serem olhados e transferidos para o papel, tal como na poesia de Ramos Rosa não os há. Os referentes surgem depois porque a grafia, seja da escrita seja do desenho, os pode pedir. É esse contracto, entre mão e plano bidimensional enquadrado, que a grafia torna algo visível para o olhar.

Há uma peculiar dimensão topológica (que achamos ser uma questão também da sua poesia) a funcionar. Não um topos de superfície, não de cores e texturas que definem superfícies. O topos vislumbra-se através de uma linha despida de contornos. Sem húmus nem tacteabilidade, sem pele nem carne, é no limite em que o corpo (a figura) se escapa que ela se revela. Diríamos um topos que se revela no limiar de uma linha que lhe indica um limite, como uma duna que se expressa nesse momento que já não a vemos, em que já não temos areia, mas um declive linear que o seu limite revela.

Ramos Rosa não é um pintor, não é um agente da cor e da mancha, mas de desenho e de grafia. Não há contornos, porque não há nada que as linhas possam fechar. Não há superfícies preenchidas, mas apenas linhas que pesquisam uma travessia nua da extensão. Mais do que superfícies contornadas, as linhas encontram fluxos e refluxos, tensões e distensões, orientações e oscilações, um jogo de expressão dinamográfica em que o plano se mantém sempre plano.
O gesto do desenho faz essa relação entre o tempo da inscrição e o rasto assinalado na extensão plana da folha de papel. Porque a folha tem extensão, ela permite que nele se inscreve o tempo do gesto. A inscrição revela-se numa mesma anima espaço-temporal.

Como poeta, que ao mesmo tempo ainda é e deixa de ser enquanto desenho, é um homem da grafia. Há um gesto na escrita que se suspenda da letra e da palavra para escoar espontaneamente na superfície. Ao contrário de Henri Michaux, que ao se disponibilizar para uma folha de papel tanto podia começar um poema ou uma pintura, Ramos Rosa separa os actos, concatenando o desenho com a poesia. O desenho surge assim como espaço de respiração do peso semântico da palavra, dessa «cintilação silenciosa» agregada à diáspora errante da linha.

Entre a escrita poética, o poeta faz uma grafia outra, diria descaligrafada – ou de calipt (do oculto) – onde o gesto e o suporte são um espaço intimista e livre de acontecimentos.
Ramos Rosa começou a desenhar com a série O Rosto de um Desenho. Nestes desenhos há um efeito mais centrífugo em torno de um centro através de uma curva elíptica que concebe a figura estrutural do rosto. Ainda nesta série começamos a encontrar desvios a esse centro. Os bichos instantâneos, como chama Ramos Rosa, à série mais recente em que dominam os pássaros, evitam qualquer fechamento em torno de um único centro, preferindo a contracurva, criando tensões multilaterais ao percurso da linha.

As primeiras origens da grafia dos desenhos não são estéticas, mas temperamentais e existenciais, uma descompressão. Por isso ela lança-se na garatuja, espontânea e livre. Mas esta ausência é também a possibilidade do estético, possibilidade de um espanto do próprio António Ramos Rosa perante o que surge. Entre o descomprometimento libertador do gesto e a possibilidade estética desenvolve-se esta produção.

Fernando Paulo Rosa Dias













fotografia e selecção de poemas de João Silva